Ex.mo Senhor Presidente da República, Aníbal Cavaco Silva;
Ex.mo Senhor Ministro-Adjunto e dos Assuntos Parlamentares, Miguel Relvas;
Ex.mo Senhor Ministro da Educação, Nuno Crato;
Ex.mo Senhor Primeiro Ministro, Pedro Passos Coelho;
Ex.ma Senhora Presidente da Assembleia da República, Maria Assunção Esteves;
Senhores(as) Deputados(as) da Assembleia da República Portuguesa;
O meu nome é Ricardo Sousa e sou um estudante e empreendedor português. Tenho vinte anos e ainda não fiz metade do que Vªs Exªs fizeram, mas escrevo-vos hoje esta carta aberta na qualidade de cidadão (orgulhosamente) Português.
Felizmente tenho tido a oportunidade de viajar por esta Europa e mundo, privando com pessoas de diferentes quadrantes e áreas. Todos eles sem excepção mostram um respeito pelo nosso país que eu desconhecia existir. E que me arrepia… e mais… que me surpreende. Porque numa altura em que estamos claramente a enfrentar um momento determinante a nível económico, há ainda um respeito pelo nosso passado e uma confiança no nosso futuro que me deixa cheio de esperança quanto ao que podemos ser.
Como qualquer outro cidadão português não directamente ligado ao poder político nacional, tenho acompanhado os desenvolvimentos recentes em torno da situação da licenciatura do Sr. Miguel Relvas através da comunicação social e da informação que vai sendo vinculada um pouco por toda a Internet. Ciente que estou que nenhuma destes vínculos de informação é apartidário ou desinteressado, não deixei de não sentir uma urgência de, nas formas que me são possíveis enquanto “simples cidadão”, me manifestar pelo que considero ser uma das maiores faltas de respeito pela inteligência, trabalho e esforço dos portugueses, em especial da sua classe estudantil na qual melhor me posso rever, nos últimos anos.
Como ponto prévio, salientar que nos últimos anos tenho tido uma relação próxima com a participação cívica activa enquanto estudante mas que nunca e em situação alguma, por manifestamente considerar que tal iria condicionar o meu julgamento, me associei a qualquer cor partidária – independentemente do número de convites das diversas “Jotas”. Também tenho um leque de experiências profissionais relevantes, mas não pedi qualquer equivalência.
Assim, a carta que vos escrevo hoje é mais como cidadão preocupado com a imagem do meu país e seus órgãos governativos (e chocado com o nível de apatia política a que podemos chegar) e menos como instigador de qualquer desequilíbrio partidário.
Serão poucas as pessoas que estarão a par de todos os factos que levaram a esta recente polémica. Serão ainda menos os que dispõem de toda a clareza para declarar seja o que for. Mas do que vejo, e porque apenas disso posso falar, não posso deixar de partilhar que este foi para mim o momento em que deixei de acreditar que o sistema democrático em Portugal funciona. E digo-o com a maior sinceridade. Quando vejo uma geração à minha volta que já há muito deixou de acreditar em Vªs Exªs e no sistema que representam, percebo que talvez fossem eles a estar certos.
Gostava de partilhar com Vªas Exªs os motivos pelos quais esta situação me causa um desconforto imenso. Espero que pelo menos alguns destes motivos encontrem correspondência em Vªs Exªs.
1) Vejo à minha volta imensos (e digo: imensos!) estudantes que se esforçam, colocando em causa a sua estabilidade económica e a dos seus pais, para cumprirem um curso de 3 anos que lhes possa abrir as portas ao mercado de trabalho. Vejo à minha volta pais a privarem-se de muitas coisas para poderem oferecer aos seus filhos aquilo que, em muitos casos, os seus pais não lhes puderam dar: a educação. Vejo esses esforços (financeiros, de estudo, de dedicação) a serem desrespeitados de forma brutal por um ministro que, independentemente da sua “experiência profissional” nunca teve de passar pelos mesmos dilemas que estes meus colegas tiveram e têm e que, mesmo assim, recebe o mesmo nível de acreditação. Não é aceitável.
2) Sinto que o sistema educativo português, especialmente o universitário, não merece tal descredibilização. Os nossos excelentes cientistas, premiados lá fora diariamente, os nossos engenheiros a trabalhar para fazer o amanhã muito melhor que o hoje, todos os outros profissionais que passaram por um processo académico exigente como em muitos casos é o português, não merecem esse desrespeito. As pessoas que estão a assegurar que o Sr. Ministro, eu e tantos outros portugueses possamos ter melhor qualidade de vida não merecem ver os seus passados académicos menosprezados por aquilo que foi uma situação específica – trazida para a agenda pela comunicação social mas, não se enganem Ex.mos Senhores, mantida na agenda precisamente por Vªa Exªs, em especial o Sr. Ministro ao recusar-se a deixar a cadeira que ocupa.
3) Não posso deixar de lamentar enquanto cidadão português, que exista uma descredibilização total e interrupta do sistema político Português por essa Europa e mundo fora. Nos últimos dias recebi cerca de 10 e-mails de diferentes pessoas a perguntar “afinal o que se passava com o tal ministro que não tinha a licenciatura” – ou, melhor, a perguntarem se “tal é mesmo possível?”. Infelizmente, cá, é.
4) Há muita coisa errada com o sistema político português e com os seus representantes. Prefiro não entrar nesse caminho, dizendo apenas que, na minha óptica, o principal dos problemas é a falta de valores. Não sei, nem tampouco consigo imaginar, como é que existe um degradar tal do nível de valores da classe política, mas a verdade é que os portugueses o sentem todos os dias. Desculpem Ex.mos(as) Senhores(as) mas enquanto cidadão português não posso acreditar no exemplo que estão a passar à minha geração e a todas as que se seguem. E qual é esse exemplo? Um total, e incrivelmente acentuado, incentivo à falta de esforço, trabalho e dedicação. Um total desrespeito pelos esforços de outros e o vincular desta ideia de que as coisas podem ser fáceis, de que todas as regras são maleáveis, que os políticos não obedecem às mesmas regras ou – pior – que os políticos ditam as suas próprias regras. Não é nesse mundo que querem que os vossos filhos vivam.
5) Numa altura em que os altos responsáveis do nosso país pedem aos portugueses um enorme esforço para conter a despesa (que – sejamos claros – vocês e os vossos colegas de Jota criaram) é justo que haja tamanha falta de respeito pelos Portugueses? É compreensível que não haja os mesmos esforços e humildade? Para com um povo que acatou e não saiu à rua a queimar o que lhe vinha à frente? Consideram que a minha geração tem de pagar um preço tão alto? Acham lógico que eu deixe de ter meio passe de transporte pago mas se coloque em causa a qualidade de uma licenciatura de um alto membro do meu governo e NINGUÉM ache isto preocupante nessa esfera quase que divina em que vivem? Eu não. Eu e milhares de portugueses.
6) Outra coisa que me causa um nível de incompreensão descomunal é a apatia partidária a esta situação. Como é possível que não haja uma reacção firme a esta situação por parte dos restantes membros da AR? Querem, também eles, fazer parte deste lote classificado nas ruas pela total falta de valores, respeito e vergonha?
7) Mas mais do que tudo, o que talvez me custa mesmo mais a perceber é a completa e anedótica falta de valores a que o nosso país e a sua classe política chegaram. Todos falhamos, todos temos os nossos calcanhares de Aquiles, mas é a forma como lidamos com essas situações que define o nosso carácter. Custa-me a acreditar que perante a descredibilização de uma instituição de ensino e seus alunos, o nível de chacota das altas figuras do estado, a total falta de crença dos portugueses, o desânimo dos actuais e futuros estudantes, as manifestações em vários quadrantes de perplexidade para com esta situação, os mais proeminentes membros das instituições do país não se pronunciem! Sr. Primeiro-ministro – quer queira quer não, quer hajam razões ou não um “não assunto” não faz manchetes e é abertura de telejornais por dias seguidos. Está o Sr. Primeiro-ministro a brincar com a minha inteligência e com a inteligência dos portugueses, inclusive daqueles que votaram em si, ou o Sr. Primeiro-ministro não consegue mesmo ver esta realidade?
Entenda, Sr. Ministro e restantes destinatários, que não é o facto de ter licenciatura ou não que me incomoda. Sou, aliás, como qualquer pesquisa comprovará, um grande crítico do modelo educativo e um defensor de que a experiência profissional pode valer muito. Mas, Sr. Ministro, o mais importante nesta como em outras coisas é a transparência. O problema aqui, Sr. Ministro, é haver coisas que não batem certo, processos que não são claros, muita promiscuidade de poderes. As regras têm que ser iguais para todos. Esse sim, é o problema e a causa do tumulto em que se encontra.
A todos vós: podem haver interesses próprios e de terceiros a pautar as vossas condutas. É… Humano. Mas o vosso maior dever não é para com terceiros, mas sim para com o povo português que indirectamente ou directamente vos colocou nas posições que ocupam. E se essas são janelas abertas para poderem fazer muita coisa, também são posições que exigem respeito pelos Portugueses e pelos valores que deviam pautar este país.
Seria muito incorrecto da minha parte duvidar da boa fé do Sr. Ministro – ou inclusive tirar conclusões quanto a este caso que não as factuais. Tenho qualquer membro representante do meu sistema político na mais altíssima consideração.
Aliás, estou certíssimo que o Sr. Miguel Relvas conseguirá arranjar qualquer emprego com as imensas relações profissionais que tem (afinal, terão sido essas relações – ou a experiência delas tiradas – a dar-lhe o canudo) e não precisa do cargo que ocupa neste momento. Porque Vª Exª não precisa do cargo e nós, Sr. Ministro, não precisamos de si – tem uma clara “solução” para esta face do problema.
Com esta situação percebi que não é neste país que quero que os meus filhos cresçam, e percebi que a causa são Vªas Exªs. Vªas Exªs que desiludiram, desrespeitaram, enganaram e, perdoem-me, em muitos casos roubaram a minha e outras gerações de riqueza, oportunidades e visão.
Assim, a maioria dos portugueses pode, por sufrágio, ter dado ao Sr. Pedro Passos Coelho o lugar que ele ocupa neste momento, mas, desculpar-me-á Sr. Ministro, nem eu nem nenhum outro português o elegeu para as funções que está a desempenhar. Por isso faça-nos um favor: honre os portugueses. Demita-se. E se essa não for a sua decisão então que os outros titulares de órgãos públicos o façam, acima de tudo a bem do respeito pelas instituições que vocês próprios dirigem.
Com os Mais Respeitosos Cumprimentos,
Ricardo Sousa
Cidadão Português
www.ricardosousa.me
Para um full-disclosure de toda a minha vida cívica – pf consultar aqui.